sábado, 21 de janeiro de 2017

Viver e morrer pelo amor no Topo da Montanha


“O feminismo branco forjou-se nas costas das Mulheres Negras”. 
(Feministas Negras na Marcha de Mulheres - Washington, 21 de janeiro 2017).

Taís Araújo e Lázaro Ramos homenageiam Dona Ruth de Souza
Foto: Marcos Ferreira/Brasil News

Neste escreviver que abre os trabalhos de 2017, o exercício será dedicado a narrar, sob o ponto de vista de uma historiadora do pós-abolição dos EUA, a linguagem de possibilidades trazida por O topo da montanha, que dizendo a que veio escolheu como data de estreia para temporada carioca o 20 de janeiro – dia de Oxóssi, orixá da caça e da fartura. A representatividade negra materializada nos corpos e nas performances dos atores, na expressiva presença de público negro e na mensagem que verdadeiramente tocou minha alma: “quem vive pelo amor, morre pelo amor” serão os bordados de minha colcha.

Ontem foi o dia de lembrar que em janeiro de 2009, assisti à posse do presidente Barack Obama no Centro de Estudantes da New York University. Eu tinha 29 aninhos... Cheguei lá – minha primeira viagem internacional - para realização de estágio de doutorado sanduíche. O discurso We Can, a representatividade da família Obama, o contato com pessoas de todas as partes do mundo, a família dominicana que Janny – “irmã da alma”, ofereceu-me, as descobertas gastronômicas, o aprendizado do Inglês em uma escola pública para imigrantes, na maioria ilegais, foram experiências que mudariam para sempre o curso do meu rio...

Assistindo ao espetáculo no SESC Ginástico, emocionei-me. Agradeci à minha mãe Sonia por ter me ensinado o sentido mais valioso de intelectual negra: viver com amor. Sonia era uma mulher de amores. Ontem compreendi de forma mais profunda que o amor e à devoção às palavras que vêm da alma constituem-se no principal elo da nossa união.  

A peça é estrelada por Taís Araújo e Lázaro Ramos e inspirada no livro de Katori Hall, uma jovem de 25 anos, que transgrediu mitos e verdades, narrando como teria sido o último dia de vida de Martin Luther King, o reverendo afro-americano, líder pacifista dos direitos civis e Prêmio Nobel da Paz, assassinado em 04 de abril de 1968, na cidade de Memphis, na sacada do Hotel Lorraine, aos 39 anos. Um crime legitimado pela política de segregação racial e pela supremacia branca no país.


Pensar na totalidade do texto, com forte investimento no resgate da imagem do Dr. King como um homem comum, repleto de “fraquezas mundanas” e de Camae, a camareira, dona de um discurso potente de humanidade Negra, faz lembrar do texto sagrado “Vivendo de Amor”. Nele, a feminista afro-americana bell hooks descreve de forma sublime o ato de curar  a comunidade negra através do amor:

Expressamos amor através da união do sentimento e da ação. Se considerarmos a experiência do povo negro a partir dessa definição, é possível entender porque historicamente muitos se sentiram frustrados como amantes. O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muito difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. Falo de condições difíceis, não impossíveis. Mas precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar.

Estar em um teatro, espaço hegemonicamente branco e elitista, conhecendo uma história de protagonismo Negro na primeira pessoa é acessar o “templo da justiça”, sempre lembrado por King. Olhar para a cadeira ao meu lado e ver um corpo preto igual nas nossas diferenças é restituir o “verdadeiro significado dos [nossos] princípios”. Em uma cidade organizada para desumanizar pessoas Negras, cruzar as escadas e receber sorrisos e olhares de cumplicidade da negrada – de gêneros, classes, gerações, sexualidades diversas - é viver de amor.

Jornal Negro "A liberdade", São Paulo, 1920
Coleção: Jornais da Raça Negra, Fundação Biblioteca Nacional

Caderno interativo da peça O topo da montanha. 
(nele as pessoas são convidadas a registrar suas referências negras).

Na incessante busca pelo “oásis da liberdade”, a centralidade do ato de cuidar apareceu em detalhes que passarão em negro para sempre nas nossas lembranças. As boas vindas contagiantes da atriz e do ator minutos antes de iniciar a peça. Os tablets espalhados no saguão exibindo títulos da coleção de documentos históricos  “Jornais da Raça Negra”. Um lindo caderno interativo, o qual espera-se seja preenchido com nomes de figuras Negras referências para as pessoas da plateia - nomes que poderão mais adiante ser incorporados à peça (ops, sem spoiller!). A belíssima homenagem em vida à estrela de 94 anos, Dona Ruth Souza, fazendo-nos compreender – em lágrimas – o sentido prático de descer do palco. Tudo isso nos dá força para lutar contra o Alcaçuz nosso de cada dia e chegar às alturas. Como aprendemos com o Dr. King, do topo da montanha deixaremos "a liberdade soar". Sigamos vivendo de amor!



O Topo da Montanha – Imperdível!

21/01 a 19/02 
Av. Graça Aranha, 187 - Centro


domingo, 20 de novembro de 2016

Cotas e contos de vista

No Mês da Consciência Negra, seguimos reexistindo, com muita coisa bonita e potente para celebrar porque nossa história é de criatividade e magnitude. Mas sigo acreditando que as datas comemorativas são momentos para conferir visibilidade não apenas às conquistas, mas às travessias que ainda precisamos percorrer. Por isso, no dia em que completam-se 321 anos da morte de Zumbi de Palmares na Serra da Barriga, uma pequena reflexão, inspirada por um choque de realidade que tem circulado nas redes sociais. 



Ao ler os dados que não são novos para quem se interessa, passou um filme na minha cabeça. Precisamos falar mais sobre eles, encarando nossa realidade de frente, deixando de lado vaidades e projetos individuais de ascensão social ...

Pensei, pensei, pensei e resumo aqui questões que me tocam e com as quais tenho aprendido a lidar.

1. O aumento indiscutível de estudantes negros nas universidades públicas e privadas é muito importante. Não é uma migalha, mas uma conquista dos movimentos sociais negros e que, por sinal, está ameaçada. É uma conquista também que alude às nossas formas comunitárias pretas de ser e estar no mundo. A maioria dos estudantes negros que chegam à universidade são os primeiros de famílias inteiras que se mobilizam para ter um filho, filha ou parente "formado".
2. Embora importante, nem de longe o ingresso na universidade é o ponto de partida e de chegada das questões que nos circunscrevem como uma comunidade negra diaspórica ou como um povo preto. Nossa principal pauta segue sendo a LUTA PELA VIDA!
3. Como professora, me deparo diariamente com narrativas muito difíceis e dolorosas de estudantes negros. Narrativas estas que se inserem no racismo acadêmico, formatado na lógica do "aqui não é para você".
- Assédio sexual com estudantes negras chamadas de "mulatas", recebendo convites para jantares.
- Lesbohomotransfobia e racismo, culminando em mortes, evasões, processos administrativos engavetados.
- Preterimentos em seleções de bolsas.
- Ridicularizações das formas de escrita que destoam da norma culta.
- Comentários em sala de aula violentos sobre a Baixada Fluminense, as favelas, os subúrbios e seus cidadãos ("bando", "gang", "desclassificados", "burros").
- Discursos em sala de aula de saudosismo da universidade antes das cotas.
A lista é muito maior, mas por ora basta...
4. De um jeito ou de outro precisamos lidar com o fato de que alguns de nós (ainda poucos) chegamos à universidade e que nela nos esforçamos diariamente para permanecer porque vemos alguma importância ou sentido nessa estadia. 
Pergunta: Qual seria a solução? Ir embora acreditando que o mundo acadêmico não é para a gente?


NÓS POR NÓS
Em minha caminhada, constato com risos e lágrimas, que o trabalho acadêmico é duro, solitário e necessário. Inspirada pela perspectiva do Quilombismo e pelas formas de organização dos coletivos negros universitários tem sido possível dar vida a uma agenda acadêmica negra que passa pela criação de disciplinas, grupos de pesquisa, seleções bibliográficas de autoras e autores que nos representam, atividades de ensino, pesquisa e extensão na graduação e na pós, articulações com movimentos sociais negros. Tudo isso tendo como foco que devemos assumir compromissos individuais em nome da nossa comunidade negra. Contos?



Mulher Negra 24h por dia!
#eunãoandosó
#jovemnegrovivo
#aquilombamentoacadêmico

VALEU DANDARA E LUIZA BAIRROS!